sexta-feira, 29 de novembro de 2024

POESIA É VIDA


Você não precisa ser poeta

Para entender os meus poemas.

Você só precisa ser

Silêncio, vazio.

Não ter desejos ou apegos;

Querer nada,

Estar apenas consciente.

Você só precisa não analisar,

Julgar, inferir mistérios.

Para entender meus poemas,

Você só precisa estar

Como eles estão: em lugar algum,

Tempo algum,

Ser coisa nenhuma.

Para entender os meus poemas

Você não precisa,

com pensamentos lógicos,

Os redefinir ou, mentalmente,

Emprestar-lhes nova tradução.

Para entender os meus poemas

Você não precisa nem os ler.

Basta existir, encantado 

Com a beleza deste momento

Chamado Vida.

 

 

 

 

terça-feira, 22 de outubro de 2024

A DOR

 


               A dor é o desconforto da alma. A não aceitação daquilo que é. A resistência e a rejeição; a auto piedade, a fraqueza, a culpa. A sensação de menos valia: não sou bom o suficiente, não consigo fazer acontecer. Fiz escolhas erradas, não tenho saída. A dor é o desconforto de não se ter um Norte. De não sabermos tudo e achar que deveríamos saber. É o querer desvendar de antemão o futuro. É o entender-se incapaz diante do novo, adverso. Adverso aos nossos melhores sonhos.

         Mas, então, como aliviar a dor? Compreendendo, não resistindo. E o que é compreender, não resistir? Compreender é saber, no fundo do coração, que o que nós chamamos de dor é uma oportunidade de aprendizado. Compreender é repensar o caminho. O que a vida insiste em nos dizer quando o fracasso se instala - quando nos sentimos impotentes, paralisados pelo medo de não darmos conta dos desafios.  

             Resistir, por sua vez, é não querer sentir esse desconforto e criar a ilusão de que tudo depende de nós. É querer evitar o que é para ser.  Manipular o mundo lá fora, os outros. Quando você resiste, você acumula uma energia tóxica dentro de você, que vai passar a vida inteira tentando sair. E você vai dizer: “aquilo que eu mais temia me aconteceu”. Uma energia manifestada em eventos difíceis e constantes. E essa energia vai ficar ali, até você aceitar, compreender e deixar ir.  Até você se tornar humilde.

             Mas, o que é ser humilde? Pergunte-se: quem sou eu? De onde eu vim? Para onde eu vou? Se você não tem respostas, respeite suas limitações. Renda-se ao que é. Compreenda que você não é só. Você não está aqui por sua conta e risco. Você está vivendo uma experiência onde você se pensa separado da fonte. Mas, você não vai a lugar algum sozinho. A vida espera que um dia, em vida ainda, a gente acorde desse sonho, dessa experiência.

             E se você não tem respostas para as perguntas acima – então, você já sabe que aquilo que você chama de  "os outros, o mundo exterior, os inimigos, problemas etc.", só depende de seu crescimento interior para se modificar e ficar mais parecido com seus sonhos. Só depende da capacidade de você se perceber um ser divino e relaxar.  Compreender que todas essas coisas são, na verdade, uma coisa só e fazem parte da mesma criação. Se você não consegue modificar a paisagem, mude seu ponto de vista e tudo vai parecer diferente.

            A dor, seja ela física, mental ou espiritual, é o acreditar que o tempo existe além daqui. Que caminhamos para algum lugar. É o desejo de obter algo de fora; coisas materiais, amor, compreensão, coisas que só você mesmo pode se dar; pois, afinal, somos o todo, a consciência.

             No entanto, só descobriremos isso, verdadeiramente, quando tivermos a coragem de nos envolvermos em uma nova e mais consciente busca e invertermos o caminho. Tudo vai ficar melhor lá fora, no momento em que voltarmos nosso olhar para dentro.  No momento em que compreendermos melhor o que o Cristo já dizia: “O caminho do pai é o caminho de volta. Eu e o Pai somos um só. Vós sois meus irmãos. Vós sois pequenos Deuses." 

"Ame a si mesmo”

 


sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

SOU

QUANDO RIO

SOU MAR,

QUANDO CHORO

SOU RIO.

QUANDO ANDO

SOU ESTRADA,

QUANDO PARO,

VAZIO.

QUANDO CANTO

SOU SILÊNCIO,

QUANDO CALO

SOU CANÇÃO.

QUANDO ESPERO

SOU CERTEZA

QUANDO ENCONTRO,

GRATIDÃO

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

CULPA ALGUMA

 

Que culpa eu tenho desses olhos verdes,

Ou desse olhar noturno de rua?

Que culpa eu tenho

Desse sorriso branco,

Ou dessa boca nua?

Que culpa eu tenho dessa pele negra,

Ou dessa negra sensação à flor da pele?

Que culpa eu tenho dessa alegria

Que livre em mim emana,

Ou dessa prisioneira liberdade

Que me inflama?

Que culpa eu tenho desses passos lentos,

E da velocidade insana de meus pensamentos?

Que culpa eu tenho pela chuva

Que de meus olhos vasa,

Das bombas todas sobre minha casa,

Do perfume que de tudo exala,

Do rio inundando minha sala?

Que culpa eu tenho de não ter culpa alguma,

Se com pouco me contento,

De ser inconstante como o vento,

Ou sereno como a lua?

Que culpa é essa que em mim não cabe,

Se você me ama e confusa inda não sabe,

Se não tenho passado nem futuro,

Vivo agora,

 Se você vai ficar ou ir embora,

Se vai me amar como eu mais quero.

Que culpa eu tenho... que culpa eu tenho?

Nenhuma... eu espero!

 

 

 

 

 

PRAIA

                                                          

              Era domingo. O sol começava a despertar. Um vento morno ouriçava os passarinhos que pareciam cantar juntos a mesma canção. No chá, um gosto de mato. No ar, um cheiro de areia. Eu e o céu amanhecíamos. Faltava pouco pro mar e o sol temperarem minha pele. Toques de laranja e azul pintavam no horizonte a esperança; um momento novo de mesma vida. As pessoas começavam, na rua, lá em baixo, a exercitar a euforia de renascer, a passos rápidos e ritmados. O silêncio generoso já sedia espaço a risos e falas mornas. O mar murmurava e se espreguiçava na areia cauteloso. O tilintar do metal de cadeiras e guarda-sóis se abrindo previam já o ardor de um dia perfeito de praia e mapeavam aleatoriamente na areia o melhor ponto de vista do infinito.  Eu apenas era um com tudo aquilo e, sem hora marcada, me dava um tempo de mim mesmo. Eu apenas existia, sem limites e pronto.

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

SOPRO DIVINO

 

 Que vento é esse

Que me sopra pra dentro,

Que me explora intensamente

E, quando assim, me traz certezas,

Não falseia, nem me mente?

 Que vento é esse

Que sussurra ao meu ouvido, inocente

Ou me grita e sentencia

E, mesmo assim, aparentemente

Inconsequente, me acalenta e me alivia?

 Que vento é esse,

Que legitima em mim a impermanência,

E da aparência ilusória do 

Real me distancia?

 Que vento é esse - Que suave brisa!

Me protege e enternece,

Nada espera e me eterniza

E por tudo me engrandece.

Que vento é esse, assim, incoerente,

Que me doa e me agradece?

Que vento é esse que me dá asas

E se enraíza em mim

Com suave e lúcida liberdade;?          

Que vento é esse,   

Que, entre infinitas possibilidades,

Se evidencia em mim, única,

imutável, incondicional verdade?!