quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Armadilhas Cognitivas


Aeron Beck, o psiquiatra criador da Terapia Cognitivo-Comportamental, estabeleceu os fundamentos para as seguintes distorções cognitivas que podem nos levar a depressão, isolamento e a ansiedade, se vivenciadas com frequência.
1.    Generalização – Você tem duas ou três experiências negativas e acha que no futuro tudo será da mesma forma e fará, ironicamente, que sua profecia se concretize.
2.    Deveria ter feito isso...deveria ter feito aquilo -  Você pensa constantemente: “se eu tivesse agido assim, nada disso teria acontecido...” Liberte-se disso. As coisas acontecem por que tem de acontecer. Por razões que nós nem sempre entendemos.
3.    Negativismo – Se alguém diz alguma coisa que você acha não ser positivo, você já acha que tudo de negativo vai se seguir a isso. E você se bloqueia e se afunda num espiral de negatividade. Você continua remoendo o assunto e não consegue mais fugir dele. Você passa ser escravo de seus próprios pensamentos.
4.    Leitura Mental – Você acredita muito em seus pensamentos. O que, normalmente, faz com que você acredite que sabe o que os outros estão pensando. Em estudos recentes foi descoberto que mesmo os terapeutas conseguem adivinhar apenas 50% do que os seus pacientes estão verdadeiramente pensando.
5.    Criar tragédias – Quando você dá dimensões exageradas aos acontecimentos você cria uma teia de preocupações, fantasiando com relação à forma como  todas as coisa podem dar errado.
6.    Autopunição – Culpar-se pelo fato das coisas terem dado errado perpetua a baixa autoestima e trás um ciclo vicioso de mais e mais preocupações. Aceitar suas responsabilidades por erros cometidos, enquanto você pensa em alternativas melhores para o futuro, é a melhor coisa a ser feita. Não é saudável acreditar que todas as coisas ruins acontecem por sua causa e para você. A maior parte das coisas que acontecem têm mais de uma causa. Sua contribuição talvez seja a menor e a menos importante delas.

7.    Avaliação Errada – Você avalia erroneamente ou interpreta mal uma situação. E depois pensa que você é um fracasso, quando tudo que você fez foi cometer um erro e nada mais.

8.    Transformando o positivo em negativo – Você sempre acha motivo para desconfiar dos outros, até mesmo dos amigos, e tem a tendência a dispensar cumprimentos sinceros. Esta forma de pensar arruína o que existe de positivo e enfraquece a amizade e a intimidade.

9.    Pensamentos como coisas reais - Você acredita que seus pensamentos são reais, quando na verdade são só pensamentos. Aprenda a liberá-los. Em especial aqueles que não são objetivamente verdadeiros. Não fazer isso pode levar a conflitos, especialmente quando você pega uma coisa que só existe na sua cabeça e a transforma em verdade.

10.  Emoção descontrolada – Você acha que sente alguma coisa. Então, essa coisa deve ser verdade. Por exemplo, você se sente ansioso e conclui com certeza que alguma coisa terrível vai acontecer.

11.  Subestimar / Superestimar  – Você tende a diminuir a importância das coisas ou faz tempestade em copo d´água. Dar a dimensão exata do problema é chave da questão. Embora, nem sempre seja fácil.

Preste atenção no número de vezes por dia que você cria essas distorções. Uma vez ciente disso, você deve fazer um esforço consciente para reduzir essa frequência. Conscientizar-se do problema é o primeiro passo no processo de mudança. A Terapia Cognitiva-Comportamental pode ajudá-lo a identificar e lidar com seus processos mentais para que você tenha uma forma mais saudável de ver a vida.  




terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Psicodinâmica do Diabetes


(Segundo Rüdiger Dahlke em seus livros – "A Doença como Caminho" e a  "A Doença como Símbolo")
Plano corporal: Pâncreas (análise agressiva, digestão dos açúcares).
Pâncreas: Pertence ao sistema digestório, é uma glândula mista com duas funções importantes, em que sua parte exócrina produz os sucos digestivos vitais cuja atividade revela sua natureza obviamente agressiva.  A parte endócrina contém os grupos de células conhecidas como placas celulares que produzem a insulina cuja redução leva ao diabetes (doença do açúcar).
O termo diabetes vem do grego e significa “arremessar através de” ou “atravessar”.  O diabético não pode (devido à falta de insulina) assimilar o açúcar contido nos alimentos, ocasionando que escoa e seja eliminado através da urina. 
 Substituindo a palavra açúcar pala palavra amor chegamos ao nível do problema do diabético.  Alimentos doces são um mero substituto para outros desejos doces, que tornam a vida uma doçura.  O desejo de comer doces e a incapacidade de assimilar o açúcar introduzindo-o nas próprias células delata o inconfessado desejo da realização amorosa. 
O diabético tem que viver com “alimentos substitutivos” especiais, viver com substitutos dos próprios desejos, levando a um excesso de acidez em todo o corpo, que pode chegar ao ponto de o paciente entrar em coma. 
Os ácidos são elementos de agressão.  Então, estamos diante de polaridades entre amor e agressividade, entre o açúcar e o ácido.  Os que não têm amor se tornam azedos – o que não têm tolerância acabam logo por tornar-se intoleráveis.
As únicas pessoas que aceitam o amor são aquelas que também são capazes de dá-lo; os diabéticos desejam amor, mas não se atrevem a procurá-lo ativamente.  Continuam ansiando e desejando por ele, como não conseguem obtê-lo, já que não aprenderam a dar amor, este passa por elas sem deixar sinal, e têm que expelir o açúcar que não assimilaram.  Mas não é por isso que devem tornar-se azedos.
Plano sintomático: diarreia do amor, medo do amor, desejo de saborear coisas doces (amor) e a doce vida, numa concomitante incapacidade de aceitar e deixar entrar o amor completamente; não acolher o doce da vida, ou seja, não poder admiti-lo no mais íntimo (das células); não poder se envolver no amor; desejo não reconhecido de satisfação pelo amor; tornar-se azedo devido a incapacidade de amar; não ter aprendido a dar amor; não se atrever a atacar ativamente o domínio do amor.
Tratamento: reconhecer o medo e a estreiteza com relação aos assuntos amorosos; reconhecer a incapacidade de admitir o amor em sua esfera mais íntima (açúcar nas células); aprender a evitar os planos não redimidos da vida, ou seja, a fechar-se para eles; no pólo oposto, abrir-se para o amor nas perspectivas anímicas e espiritual.
Remissão: encontrar o meio termo entre aceitar e renunciar; reconhecer e viver, o dar e o receber, como os dois lados do amor e da realidade.
Segundo Louise  L. Hay, o Diabetes é interpretada como “desejar por aquilo que poderia ter sido; grande necessidade de controle; mágoa profunda; nada ficou doce.”
O primeiro passo para os portadores de diabetes é se conscientizar da doença e suas causas.



terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Até que a Inveja os Separe


               Certamente você já passou por isso. Se não, ainda pode passar: você confia em alguém e acha que essa pessoa na qual você confia está acima de qualquer suspeita. E você abre sua alma. Por um bom tempo, vocês são uma dupla incrível e chegam ao ponto de dizer que essa amizade é para sempre. 
                 Mas, um dia você cria asas, busca outros mundos, trabalho, convívio com outras pessoas, novas amizades. Começa a “se dar bem na vida” e, de repente, seu melhor “amigo” começa parecer hostil. Já não é mais aquela pessoa amável e companheira. Você o percebe distante, arredio. E, sem mais nem por que, seu amigo vira inimigo. 
                 Você não fez nada, mas seu amigo começa a dizer coisas a seu respeito que você não entende. Difama você. E faz o pior que um “amigo” pode fazer: torna público seus segredos. Você continua sem entender e sofre por isso. Então acorde. Você está sendo vítima de uma das mais ignóbeis, mesquinhas e cruéis qualidades humanas; a inveja.
           Quando alguém vivencia a inveja presume que outro alguém ou alguma outra coisa está recebendo de você a atenção e o amor que pertenciam a ele/ela por direito. Quando a inveja se pronuncia, uma reação de raiva e ressentimento,  e um comportamento ofensivo e agressivo por parte de quem acalenta esse sentimento, se manifesta, gratuitamente, contra a pessoa invejada. Essa pessoa pode querer magoar a outra no intuito de controlá-la, por não aceitar o fim de uma ligação cujo rompimento, em sua visão, esteja prestes a acontecer. 
           A pessoa invejosa sente ciúmes de algo, de uma qualidade ou atributo que você possui e que, talvez, se ela possuísse tal coisa ou tal atributo, encontraria a felicidade e alegria desejadas. A inveja é um estado emocional onde a pessoa quer alguma coisa que você tem e que a levaria a ser admirada pelos outros, tanto quanto você o é. É um estado emocional onde a pessoa se experimenta carente de alguma coisa que ela acha que iria levá-la a ser admirada tanto quanto ela secretamente admira você. Essa sensação de menos-valia e inadequação sobre si mesma a motiva a se proteger, agredindo e diminuindo a importância da pessoa invejada. 
             As coisas que ela criticará com mais afinco serão as coisas que as outras pessoas admiram em você. Seu amigo tão querido, em um determinado momento, só tem, agora,  um pensamento obsessivo: “Quem você pensa que é para tentar ser alguma coisa na vida sem minha autorização? Como ousas prescindir de mim? Sem mim tu não és ninguém. Eu não te autorizo a caminhar sozinho.” E, em sua cegueira psicológica, te vê como uma ameaça. Os elogios e reconhecimento dos outros ao teu sucesso ou possível sucesso  soa aos seus ouvidos adoecidos, como uma ofensa e diminuição de seu próprio valor; e, porisso, só lhe resta retalhar, agredir. 
               Portanto, não se sinta culpado nem fique se perguntando onde você errou. A inveja é um sentimento corrompido que não se rende à lógica. Causa cegueira psíquica em quem a acalenta. Siga sua vida com tranquilidade e aprenda com a experiência. E saiba que sentimentos são sempre projeções de nosso interior que podem ser boas ou nem tanto. Mas, você nem sempre está preparado para entender isso. 
              As pessoas que acalentam inveja não conseguem se valorizar por terem, no mais das vezes, experimentado abandono e desproteção na infância. E quando virem que você é amado, naturalmente respeitado ou protegido; sentir-se-ão extremamente ofendidas e desvalorizadas e você será a bola da vez de suas mazelas recalcadas na inconsciência. 
           Não se responsabilize pelos problemas alheios, a menos que você seja um profissional da mente. E se, por acaso, você se descobrir uma pessoa invejosa, reconheça e procure ajuda. E lembre-se: a vida costuma maltratar quem não se trata bem. 




sexta-feira, 27 de novembro de 2020

APRENDENDO A SE AMAR



                “Eu sou uma pessoa que ajuda todo mundo. Sou prestativo, amigo. Não sou só um amigo das horas boas. Sou um amigo para todos os momentos. Gosto mais de dar do que receber. Fico feliz quando os outros estão felizes. Mas, mesmo assim, tenho a sensação que há alguma coisa errada comigo.” Você já ouviu isso algum dia, em algum lugar. Ou, talvez, você mesmo já tenha dito isso para alguém; não é verdade?
           Talvez você seja uma dessas pessoas altruístas e piedosas, sempre dispostas a estender a mão a quem precisa. Talvez você seja daqueles jovens que se entregam a um amor perdidamente, só para, em seguida, sofrer amargamente por ter sido abandonado sem razão aparente. Talvez, você seja daquelas pessoas que dizem: “eu tento fazer tudo certo. Sou honesto, decente, cuidadoso, me importo com os outros; mas,  quando eu preciso, todos os amigos desaparecem. 
             Quantas vezes você já disse a alguém, a uma amiga, por exemplo; “não fica assim...! Vai passar. Em pouco tempo tu nem mais vais lembrar disso. Tu és uma pessoa incrível. Tu não estás só. Tu tens a mim e eu te amo muito, tu sabes! Eu não vou te abandonar. Calma! Dorme aqui hoje. Não vá para casa, eu vou cuidar de ti!?” Muitas, quem sabe!
            Por isso, neste momento, se você está dizendo: “eu sou uma pessoa mais ou menos assim...”, eu quero te fazer uma pergunta: quantas vezes você disse tudo isso, que costuma dizer aos outros, a você mesma? Quantas vezes você demonstrou esse amor, compreensão e ternura, consigo mesma...? Você lembra a última vez que você se olhou no espelho e disse: fica tranquila, amor. Tu és uma pessoa incrível, eu vou cuidar de ti, tu não estás só! Posso até ouvir a resposta.
         Você, talvez, não tenha percebido com clareza o que você está fazendo. Mas, você está dando aos outros aquilo que você mais quer receber. Contudo, quanto mais você dá, menos parece obter de volta.
         Veja se você se vê aqui...! Quando as crianças sofrem bullying. Quando os adolescentes não conseguem segurar a pressão com relação ao que eles devem ou não devem fazer, dizer ou não dizer. Quando ouvem que seu valor pessoal está diretamente associado a suas atitudes com relação às convenções sociais; a sua forma de aceitar e conviver com regras castradoras - eles se esquecem de quem realmente são e passam a aceitar como verdadeiras as palavras e comentários que lhe fazem mal. Se não se encaixam nos padrões convencionais, não são dignos de ser felizes e amados. Sobra-lhes o terror da baixo-autoestima.
         Se você se sente assim, de certa forma, procure identificar a origem de seus pensamentos autodestrutivos. De onde vem essa voz acusadora? De pais severos e demasiadamente críticos? De bullying sofrido na escola? De um ex-namorado, ou namorada, que fez com que você odiasse seu corpo? Às vezes, aquelas pessoas que deveriam nos amar e nos ajudar a crescer e ser seguras, são as que mais nos ferem a alma.
            Reflita sobre seus pensamentos destrutivos. Use sua inteligência a seu favor. Será que tudo que você ouviu é verdade? Você pode estar um pouquinho acima do peso, mas você não é um gordo, ou gorda nojenta.  Você pode ter ido mal na prova e ter de repetir o semestre, mas você não é um burro, incapaz, relapso, ou coisa parecida. Você pode não saber que rumo você vai dar a sua vida, agora que você conclui seus estudos - mas você não é um incompetente.
         Eu posso ficar aqui dizendo uma infinidade de coisas que fazem de você um ser especial, uma criatura digna.  Mas, talvez nada disso adiante, enquanto você não ouvir de si mesmo tudo que quer ouvir dos outros. Enquanto você não for, para você mesmo, a melhor das companhias.
         Diga a você todo dia, toda a hora, a cada minuto se for necessário; que você é realmente essa pessoa maravilhosa que você quer que os outros reconheçam. Sinta essa verdade profundamente. Elogie-se. Perdoe-se. Afinal, não é isso que você faz com seus amigos, pais, colegas?
              Quando você sentir essa verdade enraizada em seu ser, você não vai mais pedir aos outros que reconheçam o quão especial você é,  ou quase implorar para que lhe amem por isso. Pois, nesse exato momento, será o que todos irão fazer: Vê-lo com a nova imagem que você vai refletir.
            Seja bondoso, gentil, delicado com você mesmo. Não repita em sua mente o que você ouve ou ouviu. Somente quando você ouvir as palavras certas, ditas com veracidade por você mesmo, a você mesmo, você vai poder acreditar e ser feliz.
           
         


sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Quebre o Ciclo da Ansiedade

              O medo é definido como uma emoção desagradável, causada pela crença que alguém ou alguma coisa é perigosa e pode causar dor ou ameaça. De que pessoas e situações você tem medo? Você sofre de algum tipo de stress pós-traumático que é desencadeado por um estímulo relacionado a algum lugar ou ambiente onde você experimentou algo horrível? Por que cada detalhe de uma experiência relacionada ao medo fica profundamente marcado na memória de longo prazo? 
                   Pesquisadores descobriram que o hormônio do estresse, “cortisol” e o hormônio do amor “oxitocina”, na verdade, trabalham juntos para criar uma memória de medo profundamente enraizada durante e depois de períodos de dor e aflição. Provavelmente, essa reação neurobiológica seja parte do mecanismo de sobrevivência para ajudar alguém a não se envolver novamente em situações de perigo. O medo é um mecanismo de proteção destinado a nos proteger do perigo e é indispensável à sobrevivência. Infelizmente, tanto a ameaça real ou imaginária pode desencadear a reação de medo que acaba por perpetuar o ciclo da ansiedade. 
                Os distúrbios de ansiedade que levam a ataques de pânico podem fugir do controle quando o “medo de sentir medo” confunde a realidade da situação. Em vez de ter medo de uma ameaça real, a reação de medo se apossa do cérebro e cria a sensação neurobiológica do medo; mesmo quando, na verdade, não há  ameaça alguma. 
             A ansiedade também tende a aparecer como herança familiar. Filhos de pais ansiosos têm um risco mais alto de desenvolverem distúrbios de ansiedade. Eles têm 50% mais chances de se tornarem adultos ansiosos, segundo pesquisa recente da Universidade de Johns Hopkins nos Estados Unidos. Em uma declaração à imprensa, a Drª. Ginsburg disse que: as descobertas realçam a vulnerabilidade das crianças a pais ansiosos. È preciso, segundo ela, identificar crianças em risco e tentar ajudar. A ansiedade existe para proteger e na adaptação ao meio; mas, isso pode não acontecer com crianças ansiosas, porque estas crianças têm pensamentos sobre perigo e ameaças quando  e onde elas não existem. 
                Para lidar melhor com a ansiedade, as crianças tendem a evitar aquilo que provoca essa sensação. Por exemplo, se elas têm medo do escuro, elas vão querer dormir de luz acesa. Se tiverem medo do fracasso, poderão passar a ter medo de tentar coisas novas. De acordo com o Dr. Eric Erickson, se as crianças forem encorajadas a desenvolver habilidades e enfrentar seus problemas, isso vai levá-las a ter uma sensação de competência. 
             Se, ao contrário, as crianças não forem encaminhadas para ter esta percepção, ou não tiverem autonomia para enfrentar seus problemas e superá-los, como acontece quando os pais são demasiadamente protetores, isto poderá levá-las a desenvolver complexo de inferioridade, falta de autoconfiança e ansiedade. 
        A Dra. Ginsburg argumenta que a hereditariedade e as experiências de vida desempenham um papel importante no ciclo da ansiedade. Quanto mais experiências negativas a criança tiver durante seu crescimento, maior a probabilidade de que ela venha a ter problemas de ansiedade quando adulta. Quando um adulto ou uma criança imagina algo assustador, frequentemente, sua mente não consegue perceber se este “perigo” é real ou imaginário. 
             Então, em vez de se focar na situação assustadora no mundo real, as pessoas se focam no medo imaginário em sua mente. E mesmo após a situação de perigo real ter sido evitada ou resolvida, a mente pode repetir os pensamentos assustadores indefinidamente. Por isso, uma das maneiras mais fáceis de reduzir a ansiedade e quebrar este ciclo é utilizar a chamada  “verificação de realidade” . Aprender a reconhecer quando um medo é saudável, verdadeiro e com base na realidade, ou irreal e imaginário, é uma forma eficaz de lidar com a ansiedade que as pessoas de qualquer idade podem utilizar. 
             Ao se perguntar, simplesmente: “ isto é real ou imaginário?,” você pode quebrar o ciclo da ansiedade. Em geral, da mesma forma, os adultos tendem a criar situações assustadoras sobre as quais eles não terão nenhum controle mais tarde, mesmo que o “problema” enfrentado não seja tão assustador. È comum vermos pessoas que criam as chamadas “tragédias” em cima de qualquer fato corriqueiro. De certa forma, essas pessoas não agem assim por livre e espontânea vontade, mas esta reação, como já frisamos, é uma reação neurobiológica do cérebro, e a pessoa irá repeti-la indefinidamente diante de qualquer situação aflitiva que vivenciar. 
              Compreender este fato é de suma importância para o alivio e controle da ansiedade.  Uma forma de perceber, também, se estamos “exagerando” é investigar o entorno: Será que todas as pessoas a minha volta; em casa, no trabalho, nas relações sócias, veem esse “fato ou problema” da mesma forma que eu? Será que todos têm ou tiveram a mesma reação diante dele? 
          Há, sem dúvidas, questões particulares, de foro íntimo. Nesses casos, buscar um profissional na área é o mais adequado. De qualquer forma, as instruções acima citadas valem também nesses casos e produzem alívio e segurança quando repetidas frequentemente. Às vezes, o fantasma que nos assusta é só uma criança brincando com um lençol sobre a cabeça.

Baseado no texto de Christofer Bergland. In Psychology Today

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

A LIBERDADE ESTÁ ONDE O CORAÇÃO ESTÁ

            Da minha sala de aula vi, outro dia, uma tesourinha; aquele passarinho que tem o rabo parecido com uma tesoura,  bater incansável na vidraça da janela de uma casa vizinha. Parecia querer entrar a qualquer custo, como se lá dentro estivesse a coisa mais importante do mundo para ele. Batia com tanta força, que, de onde eu estava, eu podia ouvir o barulho das bicadas que ele dava no vidro.
Quando cansava, pousava na ponta da veneziana aberta. Ficava ali alguns instantes e depois voltava a bater desesperado na janela. Mais alguns minutos e voava para um fio de luz que se estendia do poste até a casa. Balançava-se ao vento forte agarrado ao fio e, depois, alçava voo e sumia por um longo tempo. Voltava, novamente, e repetia o mesmo ritual.
            Meus alunos riam de mim. “É só um passarinho, o que tem de tão especial nisso”, um deles comentou. Achei melhor ficar quieto. Mas eu sabia que não era só um passarinho. Era um passarinho em busca de alguma coisa. E quando um passarinho busca, desesperado, alguma coisa, não é mais só um passarinho. É um passarinho com um desejo. E um passarinho com um desejo é um passarinho infeliz. É um passarinho buscando algo lhe falta ou lhe roubaram, ou algo que ele perdeu.
            “Talvez ele tenha se enxergado na vidraça e esteja brigando com ele mesmo. Passarinhos são assim, não sabem o que fazem.” Exclamou outro aluno. Não, pensei, quando um passarinho se enxerga, se reconhece, cessa a vontade de lutar. Desaparece o desejo. Sente-se completo. Por que, então, com toda a liberdade do mundo, com o infinito a sua volta, ele, ainda assim, buscava alguma coisa atrás daquela vidraça?
            Vocês vão dizer que eu enlouqueci. Mas, eu juro que decidi perguntar isso a ele. Sim, ao passarinho: ei, amigo, será que eu posso ajudar? Disse-lhe em pensamento. O que você está buscando tão desesperadamente aí dentro? Silêncio absoluto. Insisti: eu gostaria de poder ajudar. Diga-me o que eu posso fazer?
            De repente, eu ouvi, nitidamente, a voz do passarinho dizer: feche os olhos e me diga você! O que você acha que eu estou procurando? Você também está se sentindo como eu. Só que você está atrás da vidraça. Olhe com calma para dentro de você e me diga: o que se esconde dentro de sua alma.   Pois é exatamente isso que eu estou buscando. 
Não pode ser. Você não pode estar buscando o mesmo que eu. Eu não tenho asas. Se as tivesse, certamente iria por aí em busca do horizonte, da felicidade. Voaria pelos quatro cantos do mundo. Mergulharia em todos os oceanos. Perseguiria o verão eternamente. Habitaria todos os espaços. Ouviria os sons das matas e das cachoeiras. Pairaria além dos trovões e das chuvas. Sentir-me-ia imbatível. Mais forte que a força de todos os mares. Mais importante que todos os reis da terra. Faria milagres. Transformaria água em vinho.  Lágrimas em sorrisos. Sonhos em verdades. Desviaria rios de seus cursos, para matar a sede das terras áridas. Mataria a forme do mundo. Adotaria todas as crianças. Aplacaria todas as guerras. Sentiria o doce gosto da liberdade. Você, no entanto, apesar das asas,parece buscar a prisão. Parece querer confinar-se em um mundo com janelas fechadas.
Depois de longo silêncio, ouvi, cansada, a voz do passarinho: Viu, agora você sabe o que eu estou fazendo com tanto desespero. Estou buscando exatamente o que você busca e definiu tão bem. Sabe, amigo... disse-me ele, ontem quando voávamos juntos eu e minha amada, ela distraiu-se por um segundo e entrou por esta janela que ainda estava aberta. E, alguém, inadvertidamente, a trancou lá dentro.  Entendes agora? Minha liberdade está lá  dentro, incomunicável, isolada -  que diferença faz ter asas?
            Pessoal, disse eu, retomando minha aula -  eu quero que vocês escrevam um parágrafo sobre o seguinte tema:  “A liberdade está onde o coração está.” Quanto vale, professor? Perguntou-me um aluno. Digam-me vocês, respondi-lhe.



sábado, 30 de maio de 2015

NUNCA CONFIE NUM HIPERATIVO (RIR AINDA É O MELHOR REMÉDIO)

Maurício é um aluno hiperativo, que estuda Inglês comigo no cursinho. Tem seis anos de idade e uma carinha de sacana que, às vezes, da vontade de acariciar e, às vezes... . Bem, não vamos entrar em detalhes. Maurício é daqueles pestinhas que não para nunca. Pega o lápis do colega, põe no lixo. Quando o colega vai buscar, pega o estojo dele e põe na pasta de outro colega. Nunca ouve o que eu digo; mas, mesmo assim, aprende tudo. Não sei como, mas aprende.
            Outro dia, no entanto, percebi que ele estava calado. Parecia pensativo. Olhar fixo no caderno. Eu diria que ele parecia triste. Como não dá muito para confiar nele, fiquei quieto e deixei rolar. Lembrei-me de um provérbio que a minha mãe usava muito: “enquanto o pau vai e vem as costas folgam.” Não preciso entrar em detalhes,  acho que vocês me entendem. Fui atendendo outras crianças e rezando para que aquilo durasse pelo menos uns quinze minutos.
            Não durou. De repente, ele levantou a cabeça e disse, sem rodeios: Celso, tu não qué sê meu pai? Mil coisas passaram pela minha cabeça em poucos segundos: nem morto, pensei em dizer. Nem teu vizinho eu queria ser. E outras coisas que não me atrevo a dizer aqui. Mas, é claro, que não disse nada disso. Ele mesmo se encarregou de explicar: não entendo por que meu pai deixou da minha mãe e se foi embora....
Eu também não, pensei. Só para vocês terem uma ideia, a mãe dele é uma moça de mais ou menos 25 anos. Tem olhos de um verde de selva, os cabelos são de um sol intenso, o andar é de felina e o sorriso é um mar aberto de possibilidades. Tem em torno de um metro e setenta de altura. É daquelas raras mulheres que, por mais que se procure, não conseguimos encontrar nenhum tecido adiposo excedente ao longo de seu 1.70. E olha que a galera procura! kkkk. Mas, voltemos ao Maurício.
Ser pai dele no primeiro momento havia me parecido um absurdo. Mas, como vocês já viram, o pacote que o meu pequeno interlocutor me oferecia, implícito naquela negociação, era mais que razoável. Arrisquei: por que tu queres que eu seja teu pai? 
Ele me olhou com aquele olhar inocente e ao mesmo tempo demoníaco e disse:  É que eu fico toda tarde trancado no meu apartamento, sozinho.  E aí, se tu fosse meu pai, tu podia me ajudar a fazer os temas da escooooola, do inglêeeeees. Ele espichava as vogais, acho que era para eu sentir pena dele.  .... e depois, quando a minha mãe chegasse do colégio, à noitinha ( ela é professora), tu ia embora pra tua casa.
Danadinho, pensei. Nem saiu das fraldas e já quer trapacear nos negócios. Refleti um pouco e disse para mim mesmo: não vou perder para esse projeto de malandro. Não é possível que um piá de seis anos me passe a perna, não vou deixar barato.  Ah é, que gracinha! Tu queres que eu seja teu pai só para te ajudar a fazer os temas de casa e não ficar sozinho.  Acho que tu só queres me usar.
Maurício ficou calado. Continuava pensativo. Eu continuei atendendo as outras crianças. E já tinha dado o assunto por encerrado, quando, de repente, ele se levantou, foi até onde eu estava, puxou minha camisa e, com aquela carinha deslavada e olhar de peixe morto que Deus lhe deu, falou: É que eu durmo com a minha mãe...!
E a gente pensa que eles são alienados. Imagina!